Das águas do Brasil nasceu uma articulação que transformou invisibilidade em organização, luta e direitos para pescadoras artesanais
Há 20 anos, mulheres pescadoras de diferentes regiões do Brasil decidiram não aceitar mais o silenciamento, a invisibilidade e a exclusão que atravessavam suas vidas, suas pautas e suas lutas. O que nasceu em 2006, em Recife (PE), durante a II Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca, tornou-se uma das mais importantes articulações de mulheres das águas do país: a Articulação Nacional das Pescadoras (ANP).
Duas décadas depois, a ANP celebra uma trajetória construída entre as águas, marcada pela resistência, pela organização coletiva e pela defesa da vida das mulheres nos territórios pesqueiros.
“Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser mulher”. O verso que há anos ecoa nas místicas, encontros e mobilizações das pescadoras traduz também a essência da caminhada construída pela articulação.
Das margens ao centro da luta
Quando a ANP foi fundada, mulheres pescadoras enfrentavam forte discriminação. Muitas não eram reconhecidas como pescadoras artesanais, apesar de sustentarem famílias inteiras com o pescado, na mariscagem, na comercialização e na manutenção da cadeia produtiva pesqueira.
Ao longo desses 20 anos, a Articulação contribuiu para fortalecer a identidade política das pescadoras, ampliando sua participação em colônias, associações, fóruns, movimentos sociais e espaços de incidência política em todo o país.
| Maninha, pescadora e membro da coordenação nacional da ANP |
“Avanços e conquistas. Hoje somos conhecidas como mulheres pescadoras. Tivemos inclusão em políticas de direitos previdenciários, empoderamento das mulheres marisqueiras e pescadoras, além da construção de políticas de saúde específicas para as mulheres pescadoras”, diz a pescadora Maninha, da coordenação nacional da ANP.
Mulheres das águas em defesa dos territórios
Ao longo de sua trajetória, as pescadoras organizadas denunciaram os impactos devastadores da carcinicultura, da poluição das águas, dos grandes empreendimentos, do crime do petróleo de 2019, da mineração, das barragens, da especulação imobiliária e da destruição dos manguezais sobre a vida das comunidades tradicionais pesqueiras.
Também estiveram na linha de frente de debates sobre soberania alimentar, justiça climática e preservação dos modos de vida tradicionais. Em diferentes estados brasileiros, mulheres ligadas à ANP passaram a ocupar espaços de liderança, fortalecendo a presença feminina em um sistema historicamente marcado pelo machismo.
“Seguimos na luta para garantir nossos territórios tradicionais, por moradia e bem viver. Nossa força vem das nossas ancestrais. Nossa força e resistência vêm da luta para garantir nossas vidas em comunidades constantemente violadas de direitos. Vêm da identidade do chão que pisamos e de nos sentirmos blindadas pela nossa mãe maré. E resistir, resistir pelos nossos direitos: sempre mulheres das águas na luta”, termina Maninha.
Recife receberá encontro nacional dos 20 anos da ANP
Entre os dias 15 e 19 de junho de 2026, Recife (PE) sediará o Encontro Nacional dos 20 anos da Articulação Nacional das Pescadoras. A atividade reunirá pescadoras artesanais de diversos estados brasileiros, além de organizações parceiras e apoiadoras históricas da luta das mulheres das águas.
O encontro celebrará a memória, a resistência e as conquistas construídas ao longo dessas duas décadas, além de fortalecer os próximos passos da Articulação.
Duas décadas depois de sua fundação, a ANP segue reafirmando que não há futuro para a pesca artesanal sem as mulheres das águas.
SERVIÇO
Evento: Encontro Nacional – 20 anos da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP)
Data: 15 a 19 de junho de 2026
Local: CFL - Centro de Formação e Lazer, SINDSPREV-PE | Av. Padre Mosca de Carvalho, 57 - Guabiraba, Recife - PE
Realização: Articulação Nacional das Pescadoras (ANP)
Mais informações: (86) 9 9510-6336 | comunicacao@cppnacional.org.br

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