sexta-feira, 5 de junho de 2026

A travessia das mulheres das águas rumo a direitos e a organização

Fundada em 2006, a Articulação Nacional das Pescadoras nasceu da união de pescadoras artesanais que transformaram invisibilidade e discriminação em direitos, identidade e dignidade

Antes de existir a Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), já existiam mulheres pescando, mariscando, beneficiando pescado, remando canoas, tecendo e consertando redes e sustentando suas famílias, e vivendo em comunidade. O que não existia era o reconhecimento. Em abril de 2006, após décadas de organização silenciosa e persistente em rios, mangues, lagos, açudes e mares de todo o Brasil, mulheres pescadoras decidiram lançar suas redes mais longe: fundaram a ANP, um movimento nacional construído para defender sua identidade, seus direitos e seus territórios.

A luta começou muito antes de 2006

A história da ANP não começa em uma reunião ou em uma assinatura de documento. Ela nasce muito antes, nas águas da resistência cotidiana das mulheres pescadoras.

Desde o final da década de 1970, mulheres de diferentes comunidades pesqueiras já se organizavam para enfrentar a discriminação e reivindicar direitos básicos. Em diversos estados, surgiam grupos locais que discutiam problemas comuns: a exclusão das mulheres da pesca dos debates, a dificuldade de acesso à documentação profissional e a ausência de políticas públicas voltadas para as mulheres das águas.

Mesmo sendo responsáveis por grande parte da cadeia produtiva da pesca artesanal, muitas continuavam invisíveis aos olhos do Estado e, frequentemente, das próprias organizações.

As mulheres pescavam, mariscavam, beneficiavam pescado, comercializavam, organizavam suas comunidades e cuidavam de suas famílias. Trabalhavam muito, mas raramente eram reconhecidas como trabalhadoras.


Das margens da conferência ao centro da história

Durante a I Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca, realizada em 2003, as poucas pescadoras presentes questionaram a baixa participação feminina e reivindicaram um espaço próprio para discutir seus problemas e direitos. A mobilização gerou encontros estaduais e, posteriormente, o I Encontro Nacional das Trabalhadoras da Pesca e Aquicultura, realizado em 2004.


As sementes estavam lançadas.

Dois anos depois, durante a II Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca, em Brasília, as mulheres não aceitaram ocupar apenas as cadeiras da plateia. Reivindicaram participação nas mesas, nas falas oficiais e nas decisões políticas.

Quando suas demandas foram inicialmente ignoradas, organizaram-se coletivamente. Cantaram, ergueram cartazes, ocuparam espaços e fizeram suas vozes ecoarem pelos corredores da conferência. A mobilização garantiu a presença de mulheres pescadoras nas cerimônias oficiais, a inclusão de suas pautas nas resoluções do evento e o reconhecimento da necessidade de fortalecer sua organização nacional.


Aquelas mulheres já sabiam que não bastava participar. Não podiam recuar. Era preciso construir um espaço feminino próprio.

O nascimento da Articulação Nacional das Pescadoras

Foi assim que, em abril de 2006, reunidas em Recife, cerca de 70 mulheres de diferentes estados brasileiros fundaram oficialmente a Articulação Nacional das Pescadoras.

A nova organização definiu suas primeiras bandeiras de luta: o fortalecimento da identidade da mulher pescadora, o combate à discriminação e à violência, a defesa dos direitos trabalhistas e previdenciários, o acesso à terra e à água e a proteção dos territórios pesqueiros.

A fundação da ANP representou um marco histórico. Pela primeira vez, mulheres pescadoras de diferentes regiões do país construíam uma articulação nacional própria, voltada para suas realidades, seus desafios e seus sonhos.

Mulheres que abriram caminhos

Joana Mousinho, eleita presidente de uma colônia de pesca
- Itapissuma (PE), 1989

Muito antes da fundação da ANP, algumas mulheres já desafiavam estruturas historicamente fechadas à participação feminina e marcadas pelo machismo e o patriarcado. Entre elas está Joana Mousinho, reconhecida como a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores(as) no Brasil e uma das referências da organização das mulheres pescadoras em Pernambuco.

“A vida das pescadoras antes da ANP era difícil. Mas aqui na minha cidade, nos anos 70, através da freira Irmã Nilza Montenegro, da Congregação das Irmãs de Santa Doroteia de Frassinetti, uma das fundadoras da Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), que veio morar aqui em Itapissuma (PE), as coisas começaram a mudar para as mulheres. Ela começou a fazer reuniões e foi aqui que as primeiras mulheres a terem carteira de pesca no Brasil foram registradas, em Itapissuma (PE), depois de Ponte dos Carvalhos (PE). E quando a ANP foi criada, nós já tínhamos uma luta grande contra o desmatamento do mangue, os aterros, a poluição e pela garantia dos direitos previdenciários. Foi aqui onde começou toda a luta. Depois, em 2006, é que foi criada a ANP”, lembra Mousinho.

Seu pioneirismo ajudou a abrir caminhos para que outras mulheres ocupassem espaços de representação e liderança dentro da pesca artesanal. Em 2025, sua trajetória foi retratada em um documentário dirigido por Jéssica Raphaela, com roteiro de Kamilla Pacheco.

Joana também esteve entre as mulheres que participaram da fundação da ANP, em 2006. “Os primeiros anos da criação da ANP foram anos difíceis, com muita luta. Para mim, foi uma grande alegria participar da criação da ANP, porque, como eu disse antes, mesmo antes da sua criação, eu já fazia esse trabalho. Então, para mim, não teve dificuldade, apenas ampliou ainda mais o trabalho. Estou até hoje na ANP e espero continuar participando, dando um pouco mais de mim nessa luta constante, que não para. E espero que as mulheres participem mais e colaborem mais com essa luta”, destaca Joana.

Mulheres das águas seguem em movimento

Vinte anos depois, muitas das pautas levantadas naquele primeiro encontro continuam atuais. Mas muita coisa mudou.

As mulheres conquistaram maior visibilidade, ampliaram sua participação política, fortaleceram organizações locais e passaram a ocupar espaços antes negados a elas. A ANP tornou-se uma referência nacional na defesa das mulheres pescadoras artesanais, dos territórios pesqueiros e da justiça social e ambiental.

A história da articulação prova que as águas também guardam memória. E que toda maré de transformação começa quando mulheres decidem caminhar juntas.

Entre os dias 15 e 19 de junho de 2026, em Recife (PE), as mulheres pescadoras vão se reunir para celebrar os 20 anos da ANP. Mais do que uma comemoração, o encontro será um momento de reafirmar a força de uma organização que nasceu da resistência e continua navegando em defesa da vida, dos territórios e dos direitos das mulheres das águas.




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