quarta-feira, 29 de julho de 2026

Entre memória e futuro, pescadoras artesanais celebram 20 anos de luta da Articulação Nacional

Durante cinco dias, mais de 150 mulheres de diferentes comunidades pesqueiras do Brasil celebraram os 20 anos da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), revisitaram sua história e aprovaram uma Carta Política em defesa dos territórios, dos direitos e da vida das mulheres das águas

Foto: Louise Campos

Recife (PE) — Antes que qualquer mesa fosse aberta, antes das análises de conjuntura, das discussões sobre políticas públicas ou dos grupos de trabalho, foram as águas que ocuparam o centro da Assembleia. Vindas de rios, manguezais, estuários, lagoas e do mar aberto, elas chegaram nas mãos das próprias pescadoras artesanais. Misturadas em um único recipiente, deixaram de representar apenas seus territórios de origem para simbolizar uma única luta: a das mulheres das águas.

Foi assim que a Articulação Nacional das Pescadoras (ANP) abriu a celebração de seus 20 anos de existência, realizada entre os dias 15 e 19 de junho, em Recife (PE). Cerca de 150 pescadoras artesanais, marisqueiras, lideranças comunitárias, assessoras e organizações parceiras de diversas regiões do país reuniram-se para celebrar uma história construída coletivamente, fortalecer sua organização e definir os rumos da luta para os próximos anos.

A memória como território de resistência

A programação percorreu um caminho cuidadosamente tecido entre memória e futuro. Logo na abertura, palavras como ancestralidade, resistência, liberdade, esperança e orgulho de ser mulher pescadora ecoaram pelo auditório. Um minuto de silêncio lembrou aquelas que já partiram, mas permanecem presentes na caminhada da organização. Em seguida, o silêncio deu lugar ao canto coletivo: "Para mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser mulher".

Foto: Louise Campos
Ao longo dos dias, a Assembleia transformou lembranças em instrumento político. Fotografias antigas circularam entre as participantes, despertando histórias, reencontros e homenagens. Mulheres de diferentes gerações compartilharam como chegaram à ANP e como a organização mudou suas vidas e seus territórios. Em uma das reflexões que mais emocionaram o encontro, surgiu uma pergunta simples, mas profunda: "Quem cuida de quem está cuidando?". A provocação levou o debate para além da militância, reconhecendo que também é preciso construir espaços de acolhimento para quem dedica a vida à defesa dos territórios e das comunidades.

As homenagens ocuparam um lugar especial na programação. Ancestrais da luta, lideranças históricas, pesquisadoras, religiosas e organizações parceiras foram lembradas não apenas como parte da história da ANP, mas como sementes que continuam produzindo frutos. Foi exibido o documentário Pescadora de Direitos, que conta a história da pescadora Joana Mousinho, que estava presente no evento. A exibição emocionou as participantes e reafirmou que a história de Joana representa, na verdade, a história de muitas mulheres que transformaram a invisibilidade em organização política.


As águas seguem em movimento

O lançamento do livro "Meu Nome é Pescadora Artesanal: Duas décadas de luta da Articulação das Pescadoras da Bahia no enfrentamento da invisibilidade e defesa dos direitos das mulheres das águas" reforçou esse compromisso com a memória. Mais do que registrar acontecimentos, a publicação reúne a trajetória de organização das mulheres pescadoras da Bahia sob a perspectiva de suas próprias protagonistas, preservando histórias e saberes que, por muito tempo, permaneceram à margem dos registros oficiais.

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Foto: Henrique Cavalheiro
Mas a Assembleia mostrou que recordar também é construir o futuro. Ao longo dos cinco dias, mesas de debate, rodas de conversa e grupos de trabalho transformaram memórias em propostas concretas para enfrentar os desafios que atravessam os territórios pesqueiros. Mudanças climáticas, violência, racismo, ameaças legislativas, impactos dos grandes empreendimentos, saúde das pescadoras, soberania alimentar, participação política e políticas públicas estiveram no centro das discussões. Vindas de diferentes rios, manguezais, praias e mares do país, as participantes demonstraram que, embora os territórios tenham suas particularidades, as lutas que os unem seguem sendo as mesmas.

A luta que se transforma em compromisso

Foi desse processo coletivo que nasceu a Carta Política da Assembleia, aprovada pelas participantes como principal documento dos 20 anos da ANP. Muito mais do que um texto final, ela sintetiza as vozes, os debates e os compromissos construídos durante o encontro.

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O documento reafirma que os corpos-territórios e os territórios pesqueiros são inegociáveis, denuncia o racismo institucional, a violência contra mulheres das águas, os impactos da crise climática e dos grandes empreendimentos, além de defender o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a regularização dos territórios tradicionais, a ampliação das políticas públicas para as pescadoras artesanais e a construção de estruturas de cuidado que garantam a participação das mulheres em seus espaços organizativos. Também assume o compromisso de fortalecer a participação política das mulheres e de enfrentar todas as formas de apagamento da história das pescadoras artesanais.

Foto: Louise Campos
Uma história que continua sendo escrita

A Assembleia também definiu os rumos organizativos da Articulação para os próximos anos com a eleição da nova Secretaria Nacional da ANP. Após um processo de debate entre as delegações estaduais, que reafirmou a importância da alternância da coordenação como forma de fortalecer a organização em diferentes territórios, o estado do Ceará foi escolhido para sediar a próxima Secretaria Nacional. A transição foi marcada pelo compromisso coletivo de fortalecer o trabalho de base, ampliar a participação das mulheres pescadoras e compartilhar as responsabilidades pela condução da Articulação em todo o país.

Foto: Louise Campos
Ao final da Assembleia, permanecia a sensação de que os dias vividos em Recife haviam sido mais do que uma comemoração. Foram um reencontro entre gerações de mulheres que ajudaram a construir a Articulação Nacional das Pescadoras e aquelas que continuarão conduzindo essa história.

As águas misturadas na abertura já não pertenciam apenas aos rios, manguezais ou mares de onde vieram. Tornaram-se símbolo de uma organização que, vinte anos depois de nascer em Pernambuco, segue unindo diferentes territórios em torno da mesma certeza: enquanto houver mulheres defendendo suas águas, sua memória e seus direitos, a luta continuará existindo.

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Foto: Henrique Cavalheiro



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