Durante cinco dias, mais de 150 mulheres de diferentes comunidades pesqueiras do Brasil celebraram os 20 anos da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), revisitaram sua história e aprovaram uma Carta Política em defesa dos territórios, dos direitos e da vida das mulheres das águas
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| Foto: Louise Campos |
Recife (PE) — Antes que qualquer mesa fosse aberta, antes das análises de conjuntura, das discussões sobre políticas públicas ou dos grupos de trabalho, foram as águas que ocuparam o centro da Assembleia. Vindas de rios, manguezais, estuários, lagoas e do mar aberto, elas chegaram nas mãos das próprias pescadoras artesanais. Misturadas em um único recipiente, deixaram de representar apenas seus territórios de origem para simbolizar uma única luta: a das mulheres das águas.
Foi assim que a Articulação Nacional das Pescadoras (ANP) abriu a celebração de seus 20 anos de existência, realizada entre os dias 15 e 19 de junho, em Recife (PE). Cerca de 150 pescadoras artesanais, marisqueiras, lideranças comunitárias, assessoras e organizações parceiras de diversas regiões do país reuniram-se para celebrar uma história construída coletivamente, fortalecer sua organização e definir os rumos da luta para os próximos anos.
A memória como território de resistência
A programação percorreu um caminho cuidadosamente tecido entre memória e futuro. Logo na abertura, palavras como ancestralidade, resistência, liberdade, esperança e orgulho de ser mulher pescadora ecoaram pelo auditório. Um minuto de silêncio lembrou aquelas que já partiram, mas permanecem presentes na caminhada da organização. Em seguida, o silêncio deu lugar ao canto coletivo: "Para mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser mulher".
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| Foto: Louise Campos |
As homenagens ocuparam um lugar especial na programação. Ancestrais da luta, lideranças históricas, pesquisadoras, religiosas e organizações parceiras foram lembradas não apenas como parte da história da ANP, mas como sementes que continuam produzindo frutos. Foi exibido o documentário Pescadora de Direitos, que conta a história da pescadora Joana Mousinho, que estava presente no evento. A exibição emocionou as participantes e reafirmou que a história de Joana representa, na verdade, a história de muitas mulheres que transformaram a invisibilidade em organização política.
As águas seguem em movimento
O lançamento do livro "Meu Nome é Pescadora Artesanal: Duas décadas de luta da Articulação das Pescadoras da Bahia no enfrentamento da invisibilidade e defesa dos direitos das mulheres das águas" reforçou esse compromisso com a memória. Mais do que registrar acontecimentos, a publicação reúne a trajetória de organização das mulheres pescadoras da Bahia sob a perspectiva de suas próprias protagonistas, preservando histórias e saberes que, por muito tempo, permaneceram à margem dos registros oficiais.
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| Foto: Henrique Cavalheiro |
A luta que se transforma em compromisso
Foi desse processo coletivo que nasceu a Carta Política da Assembleia, aprovada pelas participantes como principal documento dos 20 anos da ANP. Muito mais do que um texto final, ela sintetiza as vozes, os debates e os compromissos construídos durante o encontro.
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O documento reafirma que os corpos-territórios e os territórios pesqueiros são inegociáveis, denuncia o racismo institucional, a violência contra mulheres das águas, os impactos da crise climática e dos grandes empreendimentos, além de defender o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a regularização dos territórios tradicionais, a ampliação das políticas públicas para as pescadoras artesanais e a construção de estruturas de cuidado que garantam a participação das mulheres em seus espaços organizativos. Também assume o compromisso de fortalecer a participação política das mulheres e de enfrentar todas as formas de apagamento da história das pescadoras artesanais.
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| Foto: Louise Campos |
A Assembleia também definiu os rumos organizativos da Articulação para os próximos anos com a eleição da nova Secretaria Nacional da ANP. Após um processo de debate entre as delegações estaduais, que reafirmou a importância da alternância da coordenação como forma de fortalecer a organização em diferentes territórios, o estado do Ceará foi escolhido para sediar a próxima Secretaria Nacional. A transição foi marcada pelo compromisso coletivo de fortalecer o trabalho de base, ampliar a participação das mulheres pescadoras e compartilhar as responsabilidades pela condução da Articulação em todo o país.
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| Foto: Louise Campos |
As águas misturadas na abertura já não pertenciam apenas aos rios, manguezais ou mares de onde vieram. Tornaram-se símbolo de uma organização que, vinte anos depois de nascer em Pernambuco, segue unindo diferentes territórios em torno da mesma certeza: enquanto houver mulheres defendendo suas águas, sua memória e seus direitos, a luta continuará existindo.
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| Foto: Henrique Cavalheiro |






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